
A primeira visão que tive ao entrar no quarto foi a da coleção de bonecas. Todas elas empoeiradas, lado a lado, uma a uma na prateleira de madeira pregada à parede. Mas na medida em que baixei os olhos essa primeira impressão de infância perdida e há muito tempo esquecida transmutou-se numa sensação diferente. Já não era mais menina, era mulher, mas mesmo o sendo encontrava-se errante, se encontrava errante. Foi o que senti quando, diante do caos de papéis e fotos espalhados pelo chão, peguei aleatoriamente uma das folhas onde estava escrito:
Fico pensando em você.
E eles, trabalham.
E eu.
Não sei. Nunca sei.
Eu sei. sinto.
Talvez as horas passem, eu esqueça. Mas sempre lembro, depois.
Me recordo da noite e do dia anteriores, quando vivi e lembrei.
Lembrei que não sei. Não sei.
Me lembrei, ou meu coração me lembrou, de que sinto ferozmente.
Tão loucamente o que sinto, minhas partes todas como um jogo de encaixe.
Hoje, e talvez nunca mais, me sinto como uma parte desencaixada de mim mesma.
Porque nunca mais quero ser o que sou agora.
Vou terminar o que comecei.
Vou ver você e vou sentir vontade de morrer.
Porque amo.
Na sala pedaço do mundo volume de ares respirados Me entrego ao torturante escrever coisas extrair coisas ssssssussspi ro. . . .
Te olho agora e me queimo.
O dia corre atrás da manhã que virá e virão todos os dias todos
Em que serei uma mulher louca e comum, que precisa dormir
E precisa ver o mar
Que precisa viver mas não quer viver porque tem medo
Que necessita dizer aquilos e acolás e alhures que vêm do fundo de meu poço
Lençol de mágoas.
Quis chorar, e ao mesmo tempo tive raiva. Quantas vezes mais nossos sentimentos se transformarão em papéis jogados pelo chão? Mais medo de ninguém querer ouvir, de ter que escrever, escrever, e escrever, buscando tirar de dentro de si aquilo que sabemos que jamais nos desabitará.
Assim tem sido nossa experiência, aparentemente delirante, no entanto sábia da condição de ser mulher, ter sentimentos de mulher e desejos de mulher.
Chorei, chorei muito e me ajoelhei deitando a cabeça na cama de minha irmã pensando na saudade que ela deixou.
Assim tem sido nossa experiência, aparentemente delirante, no entanto sábia da condição de ser mulher, ter sentimentos de mulher e desejos de mulher.
Chorei, chorei muito e me ajoelhei deitando a cabeça na cama de minha irmã pensando na saudade que ela deixou.
Um comentário:
Um novo olhar sobre algo velho. Mas, sendo um novo olhar, esse passado deixa de ser velho, e torna-se atual, torna-se legítimo. E verdadeiro! ser mulher...
Bjs.
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