
O filme “As horas” inicia e termina através das imagens do suícidio de Virginia Woolf no rio Ouse em março de 1941. Entre estes dois momentos desenrolam-se períodos da vida de três mulheres, todas elas aparentemente com sintomas de depressão e ansiedade, Virginia, Laura Brown e Clarissa Vaughn. A vida de todas elas é perpassada de alguma maneira pelo romance "Mrs. Dalloway" de Virginia.
Na primeira cena o marido da escritora, Leonardo Woolf, lê o bilhete de despedida que ela lhe deixou:
"Querido,Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e incrivelmente bom. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V."
O filme segue com um forte e sensível apelo aos dramas interiores da mulher, humana e inteligente. Consonante com o estilo de Virginia caracterizado pelo fluxo de consciência, onde o monologo interior das personagens rompe com as definições temporais de presente, passado e futuro explorando o eu mais profundo. A sensação desse rompimento no filme é bastante contundente, pois ao fim não se sabe ao certo o que foi lembrança e o que foi acontecimento.
Há sentimentos e consciências de sí e da própria história que são compreensíveis somente no próprio íntimo. Não existe a possibilidade de entendimento compartilhado, mas somente a aceitação ou rejeição.
Para ver e sentir mais de uma vez.
Para ver e sentir mais de uma vez.
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