Em suas letras, além dos tipos e panorâmas sociais desenhados a partir de sua excepcional clareza no entendimento do mundo, Zé oferece ironia e humor que impedem a instalação de uma tristeza profunda e nos encorajam a tratar nossas mazelas com ânimo suficiente para tentar superá-las. Com tanta sinceridade ele não poderia abster-se de escrever sobre a condição feminina, e o faz muito bem.
Em "Pecado, rifa e revista", as diferenças de gênero compõem com as diferenças de classe a raíz dos preconceitos expostos deliberadamente de forma naturalizada, aliás, como o fazemos cotidianamente.
" Pecado, rifa e revista o pobre paga é à vista. A felicidade, o conforto,a alegria e a sorte,vendeu fiado pra Deus vai receber depois da morte.Quando o pobre está quieto está fazendo pirraçase está fazendo festaé o efeito da cachaça. Se nasce nego do cabelo duro foi a mãe saltando o muro; se nasce branco do cabelo liso ela não teve juízo. Pecado, rifa e revista o pobre paga a vista".
Em "Mãe (mãe solteira)" Zé apresenta um retrato da mulher que assume corajosamente a condição de mãe solteira, e assume só: Cada passo Cada lágrima somada Cada ponto do tricô Seu silêncio de aranha Vomitando paciência Prá tecer o seu destino Cada beijo irresponsável Cada marca do ciúme Cada noite de perdão O futuro na esquina E a clareza repentina De estar na solidão Os vizinhos e parentes A sociedade atenta A moral com suas lentes Com desesperada calma Sua dor calada e muda Cada ânsia foi juntando Preparando a armadilha Teias, linhas e agulhas Tudo contra a solidão Prá poder trazer um filho Cuja mãe são seus pavores E o pai sua coragem Dorme dorme Meu pecado Minha culpa Minha salvação
No que se refere às questões que giram em torno da condição feminina a obra mais significativa é "Estudando o pagode: opereta segrega mulher". As letras são contundentes e o encarte -pasmem- possui várias referências bibliográficas consultadas pelo artista. O que prova mais uma vez que Zé é tropicalista e não irresponsável.
Algumas letras dessa obra são:
Mulher Navio Negreiro: Mulher – Divino Luxo – Navio Negreiro O macho pela vida Se valida A molestar a mulher Se diverte. Apavorada, Ela, que se péla,Pouco pára de pé, E padece.Quando ele pia, pia, pia, Pra inibir na mulher o animal, Talvez eu ria, ria, ria,Vendo ele transar uma boneca de pau, Com seu incubado,Calado, colado, pirado pavor Do segredo sagrado. Por isto existe no mundo Um escravo chamadoMulher – Divino Luxo – Navio NegreiroGraal – Puro Cristal – Desespero Rosa-robô – Cachorrinho – Tesouro, Ninguém suspeita dor neste ideal, A dor ninguém suspeita imperial. Eucaristia – Ascensão – Desgraça,Filé-mignon – Púbis, Traseiro – Alcatra,Banca de Revista – Açougue Informal – Plena Praça,Ninguém suspeita dor neste ideal, A dor ninguém suspeita imperial.
Proposta de amor: Ó garota, Eu te convido para um novo tipo de amor, Menos novela, muito mais solidário será, A renovada confiança de ser Que a mulher há de ter Quando a senha do mistério digitar. Assim será! Ó garota, Eu contra ti já inventei os deuses, a lei, E pela carne do pecado te condenei Tô convencido que essa guerra suja Foi longe demais E te ofereço um acordo de paz. Assim será! Em muitos países do mundo a garota Também não tem o direito de ser. Alguns até costumam fazer Aquela cruel clitorectomia. Mas no Brasil ocidental civilizado Não extraímos uma unha sequer Porém na psique da mulher Destruímos a mulher. Agora estou a esperar Uma resposta de amor e afeto. Você de saia, eu de calça, E o luar será nosso teto. Uma cartinha de amor Politicamente correta Você de saia, eu de calça, Felicidade será nossa meta. Assim será!
Vibração da Carne: Tortura que ela atura com fartura No viver social, Então leve uma banana, também social. Que o cara sai com a garota, logo ali No bar tem um rali de tititi, Amigos dele com ele – com ele, por ele. De repente, cara, ela encara Um desaforo inocente – sente só, Que sai no subliminar do papo Com alho pelo soalho. Tortura que ela atura... etc Desde criança a mulher Enfrenta aquela Dissimulada agressão: Eram descarados provérbios maldosos, E duros, naquele tom brincalhão. E na dureza do escárnio Se o amor-próprio se parte...Pode interromper no corpoAquela natural vibração da carne, Gozo da mulher, que se o cara Não doar atenção – é tarde. Porque a dois, não dá pra viver, Se somos dois, que seja a valer. Baião-de-dois não dá, não dá pra fazer Sem dividir a bênção do prazer. Mas o castigo pior, a porrada Que agora o homem sofreu, Foi daquele tipo de mulher Que no seu desespero aprendeu E tentando imitar Em atitude vulgar Repete o idiota do machão No que ele faz de pior – agora Por exemplo, ela no volante A debulhar palavrão – ó senhora! Porque a dois não dá pra viver... etc 

E para aquelas que eventualmente, protegendo-se, dissimulam, Tom nos lembra que ser mulher é diferente, e que brigar pra sê-lo não significa assumir o estereótipo masculino.

Nenhum comentário:
Postar um comentário