
ESPELHO (Sylvia Plath)
Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz
—O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.
Sylvia datou "Espelho" em 1961, "O Lago" de Tarsila foi finalizado em 1928.
Expressões de uma linguagem "moderna" de duas mulheres do século XX que ousaram traduzir-se. O lago funciona como espelho do interior, e assim aquilo que é externo e aparente ganha profundidade através de uma ousadia discreta, quizá dissimulada. Sem que isso represente o bom ou o mau. Trata-se de um código feminino que reivindica seu espaço no mundo. A luta de sempre.
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