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"Uma rosa vermelha não é egoista por querer ser uma rosa vermelha. Mas seria terrivelmente egoista se quisesse que as demais flores do jardim fossem tanto rosas quanto vermelhas" Oscar Wilde - A alma do homem sob o socialismo

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domingo, 24 de maio de 2009

Aprendi com a primavera.



Até a adolescência eu via sentido em tudo o que ocorria no mundo e em minha vida. Depois, nada mais fazia sentido. E então passei a acreditar que os sentidos que outrora vira não tinham passado de um misticismo ignorante e ingênuo. Encontrei, porque talvez precisasse encontrar ou o quisesse, os argumentos necessários para o meu desencantamento do mundo. Minha fé, sem saber que era outra fé, constituiu-se na idéia de que o mundo e o homem poderiam ser calculados, desnudados aos meus olhos através de métodos compreensíveis. Assim, comporiam as imagens frívolas da confiança na minha própria existência que, por sua concretude a descoberto, poderia ser sustentada. A racionalidade se tornou minha utopia. Bem sucedida era um adjetivo que eu ansiava em vestir e seu corte ajustar-se-ia ao meu corpo, na medida em que eu circulasse numa guerra de posições entre estirpes masculinizadas sem derramar uma lágrima, sentir prazer ou sorrir sem malícia. O que eu não sabia era que nada do que eu fizesse seria suficiente para lograr qualquer êxito coerente nesse sentido, e impedir que meu corpo e minha alma reivindicassem existência naquilo que são por sua natureza, sobretudo mulher. E a mulher é diferente. E essa ciência sempre esteve ali, embora não soubesse como conduzi-la à mais perfeita floração.
Uma floração de Primavera natural.

Estéticamente mais essencialista do que naturalista.

Cecília Meireles, ah mulher poetiza, obrigado por deixar-nos esta representação preciosa.



Primavera
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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